Terça-feira, 14 de Setembro de 2010
Vilarinho da Furna está de luto - IV
Pelos vistos, o Henrique Pereira dos Santos já se convenceu (ou só deixou cair a questão?) que os acessos servem para alguma coisa no combate aos incêndios. Se assim for, dou por bem empregue a "retórica" e a "emoção" que me atribui.
Como "a experiência é a madre de todas as cousas, per ela soubemos redicalmente a verdade..." (Duarte Pacheco Pereira, Esmeraldo de situ orbis, 1506), desafio o Henrique a ir deitar fogo, em Vilarinho da Furna, nos locais onde a AFURNA fez a limpeza de matos e fogos controlados, em 2009/2010. Aposto que não vai haver aí incêndio. Vale?
E porque é que eu digo que, para evitar os incêndios, é necessário fazer limpezas de quatro em quatro anos? Pela mesma experiência de que fala Duarte Pacheco Pereira, os incêndios, em Vilarinho, ocorrem, nas mesmas áreas, a um ritmo médio de cinco ou seis anos. E não me venham dizer que não há dinheiro para a limpeza proposta. Ou será que os burocratas do ICNB "comem tudo / eles comem tudo / e não deixam nada..." (Zeca Afonso), da pseudo eco-taxa criada pelo governo de Durão Barroso, para defesa e desenvolvimento da floresta?
Quanto às contabilidades do Henrique Pereira dos Santos, se assim fosse, não haveria multinacional que resistisse, quanto mais uma  simples associação sem fins lucrativos, como é a AFURNA.
Henrique, olhe que as suas contas estão radicalmentre erradas porque altamentre inflacionadas. Pode ser que ainda lhe venha a mostrar onde estão as suas falácias.  Mesmo assim, o Henrique "esqueceu-se" de um pequeno/grande pormenor. Esqueceu-se de fazer as contas dos gastos com o negócio dos incêndios (bombeiros, helicópteros, aviões, militares, peregrinações de ministros, parlamentares e outras comitivas). Não apenas em relação a Vilarinho da Furna (isso é de pouca monta) mas para todo o país.
Já agora, faça as contas e diga, depois, o que fica mais barato. E "o ambiente agradece" que os fogos sejam evitados.
  
Manuel Antunes
 
NB - Esta mensagem está escrita segundo o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, exceto nas gralhas e citações.
----- Original Message -----
From: Henrique Pereira dos Santos
To: 'Manuel Antunes' ; 'AMBIO'
Sent: Friday, September 10, 2010 12:51 PM
Subject: gestão, emoção e razão

“Mas, mais que controlar o fogo, importa evitá-lo. E, em Vilarinho, nos locais onde, em 2009/2010, foi feita limpeza de matos e fogo controlado, de inverno, com uns 65.000 Euros que a AFURNA lá gastou, não ardeu. Mas, daqui a uns quatro anos, haverá que fazer novas limpezas para evitar novos fogos. O que até ficaria muito mais barato ao Estado (a todos nós) do que andar por aí com o espetáculo dos helicópteros, dos aviões, dos bombeiros, do exército, seguido das peregrinações de ministros e deputados, no negócio dos incêndios.”

 

Manuel Antunes, na sua liderança da Afurna, tem optado por usar toneladas de emoção como argumento para defender os interesses dos associados da AFURNA. Esta frase que transcrevo é excelente para discutir onde essa opção leva e as opções alternativas possiveis.

Começo por registar a minha discordância em relação à primeira frase, que é um dos grandes consensos entre quem discute os fogos. Mas eu divirjo desse consenso. Porque não concordo que seria melhor evitar que controlar o fogo? Não, apenas porque não é realista supôr que é possível evitar o fogo.

Mas para esta discussão nem é muito importante, porque depois Manuel Antunes fala em limpar matos e usar fogos controlados, no que já estamos de acordo que sejam acções importantes para controlar o fogo.

Portanto tecnicamente até haveria aqui uma boa base de convergência para discutir um modelo de gestão.

Só que a essência do problema não é técnica, é económica.

E este parágrafo de Manuel Antunes é particularmente luminoso nesse aspecto.

Vejamos os dados que se podem obter do que diz Manuel Antunes.

1)  Grande parte da encosta de Vilarinho ardeu;

2)  Uma pequena parte não ardeu porque foi feito controlo de combustiveis

3)  Não é possível saber de que áreas estamos a falar, mas vamos admitir que foram intervencionados e não arderam, 10% da área de Vilarinho. Penso que é um valor por excesso mas gostaria de trabalhar num cenário desfavorável às minhas teses. Ou seja, teriam sido intervencionados 200 hectares (visto a propriedade dos sócios da afurna ser sensivelmente 2000 hectares, de acordo com Manuel Antunes);

4)  A intervenção custou 65 000 euros;

5)  E será necessário repeti-la daqui a quatro anos;

6)  Ainda assim o fogo não foi evitado na maior parte da propriedade;

7)  Vamos admitir que o dobro da intervenção (20% da área total), se distribuída estrategicamente, permitia limitar os efeitos de cada fogo;

8)  Teríamos então um custo de 130 000 euros de quatro em quatro anos, ou seja, um custo anual de 40 000 euros (números redondos);

9)  Consegue a Afurna retirar um rendimento de 40 000 euros anuais do que produzem os 2000 hectares que detém?

Com o modelo de gestão implícito nos projectos que vi há muitos anos, era precisa uma exploração florestal intensa e em que todos os aspectos favoráveis coincidissem. Já não falando da necessidade de garantir que os sócios da Afurna teriam disponibilidade financeira para aguentar trinta nos a gastar 40 000 euros por ano para depois retirar respectivo rendimento (a somar aos imensos investimentos necessários para garantir a execução dos projectos).

Esta opção só se coloca se se admitir que o Estado, de uma forma ou de outra, vai financiar uma boa parte destas operações.

Tem sido esta a armadilha de grande parte da política florestal, a ideia de que investindo o Estado na criação de “capital florestal” a operação se pagaria a si própria e remuneraria, mesmo que marginalmente, o capital. E também por isto o discurso de Manuel Antunes é o de procurar demonstrar que ficaria mais barato ao Estado financiar estas operações que ter um dispositivo de combate (outro dos equívocos da política florestal tem sido a socialização da prevenção e combate e a privatização das mais valias).

É por isto que proponho um modelo económico alternativo, que podem ir ver na Faia Brava ou na cooperativa Terra Chã, entre outros. Sim, têm vivido muito de dinheiros públicos, é um facto, mas o caminho que prosseguem é o de se irem libertando dessa dependência criando valor que os torne sustentáveis economicamente.

O que não passa tanto pela valorização florestal dos seus terrenos, que são razoavelmente marginais e condicionados quer pelas suas características, quer pela sua mais valia de biodiversidade, mas sim por assumir a biodiversidade como motor da criação de valor.

henrique pereira dos santos



publicado por MA às 12:18
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